7 de dezembro de 2009

Ainda continua...


"Resolvi deixar fluir a corrente de vida súbita que me acometeu e preparar um bolo. Nunca tive muita paciência com a cozinha e como uma boa quase balzaquiana nada prendada e que mora sozinha, sempre idolatrei os congelados e enlatados. Mas hoje seria diferente, afinal tudo estava naturalmente sendo atípico. Por que não me render a todas as tentações de felicidade?
Não lembrava como proceder com os ingredientes. Na realidade, eu nem recordava quais eram exatamente e em que proporção juntá-los. Então lembrei que minha mãe em uma visita deixou alguns livros de receita em uma gaveta. Encontrei até facilmente, estavam empoeirados e com as páginas envelhecidas. Aquelas letras eram da minha avó e só de olhar para elas recordei de muitas coisas que iam além de ingredientes."

16 de novembro de 2009

Continua...


Eu nunca fui uma pessoa contida. Nunca esperei por um tal de momento certo para agir. Sempre fiz o que senti vontade sem parar para pensar nem uma só vez sequer. Sou um fluxo descontínuo e isso me faz sofrer de várias maneiras. Pelo menos eu vivo. Há quem não.

Essa minha maneira de lidar com a vida sem muita regra ou cautela me faz viver alegrias profundas e tristezas estratosféricas. Não aprendi a ser o meio termo.





*Trecho de um projeto de livro ainda sem nome, que estou escrevendo. Em breve mais atenção ao Blog e quem sabe, mais trechos desses meus escritos. Abraços !

26 de outubro de 2009

Com a noite



No escuro me acendo. Ascendo se for intenso. De lua cheia.
Da escuridão eu não tenho medo. Sou loba da noite.
No entardecer caminho. Busco o instante do céu em fina cor e da chuva de diamantes.
Da escurião eu não tenho medo. Sou esse silêncio que sopra na janela.
No uivar do vento encontro voz. Ainda enxergo nuvens. Ainda enxergo nuvens.
Da escuridão eu não tenho medo.

5 de outubro de 2009

Ao meu menino


Sempre falei do amor. Sempre foi um tema que me inspirou e me envolveu de maneira fabulosa. Porém, peço perdão às palavras que dediquei a este sentimento. Pois pela primeira vez sinto o que é verdadeiramente "amar e ser amada" e é uma sensação que foge do meu controle, das minhas idéias e dos verbos de ação...
Nada é suficiente para explicar. Nenhum adjetivo é capaz de medir. Nenhuma frase é forte o suficiente para conter com um ponto final. Amar pede reticências...
É tentar dizer o indizível. Explicar o inexplicável. Amo simplesmente.
Amo com toda minha fé e sinceridade. Com toda minha alma, mente e corpo. Amo como nunca imaginei amar. Confio como nunca imaginei confiar. Amo sem medo, sem pressa, sem ciúme. Amo de olhos fechados dançando no escuro.
Viver um sonho me emociona e me assusta, já que sempre dá aquele frio na barriga ao acordar quando me pergunto, " será tudo realidade ou sonhei ?". Mas quando concluo que tudo é real, sinto correr dentro de mim uma intensidade luminosa de alegria capaz de explodir no céu como fogos de artifício e contagiar a espécie humana com alguma substância insolúvel e inexplicável que produz conforto e serenidade.
Amar da maneira mais pura, mais sincera e mais entregue que posso, me faz sentir coragem, proteção e paz interior. E tudo isso é natural, é incontrolável e dispensa a razão.
Amo e tenho o amor como guia.

Te amo, meu menino. Obrigada por me fazer realmente entender o que é amar e ser amada.

23 de agosto de 2009

Pulsando azul da prússia


Meu coração é ocupado por um terreno de flores em tom vermelho-sangue que se renovam e por momentos me deliciam com o aroma que exalam dentro de mim. Uma anestesia, uma sinestesia. Um tal de sonhar com mãos que dadas, se sentem.
Quando essas flores brotam, corre pelas minhas artérias uma forte dose de amor a ser dado . Um buquê sedutor a ser entregue. Começam os sonhos, o brilho nos olhos, as cores. Gratuitos. Um observar novos horizontes, novos sorrisos, novos viveres.
Se não há quem as colha, elas murcham em um processo doloroso e aflito. Porém, temporário. Então quem assume é a cor azul da prússia. Ela invade o terreno outrora habitado pelas diversas flores sedentas por um olfato sensível e passa a tornar gélido o ambiente. Gélido e completamente azul. Então uma fina cobertura de neve e inspiração o ocupa. Não inspiração anti-romântica necessariamente, mas certamente de observação dos corações alheios e atados. Dos jardins que observo de minha janela. Passa a existir um gosto de gelo no centro da língua.
Apesar do desgaste em decorrência das constantes mudanças de estações, o coração enquanto pulsar, morrerá e renascerá em pétalas aveludadas e ansiosas por toques sinceros de mãos que sabem sonhar. Mesmo que o amor que corre em artérias saindo do peito volte solitário em veias que retornam (como uma carta que não encontrou endereço existente), que ele continue pulsando e fertilizando o solo das flores. Permitindo que o amor impossível encontre a sua possibilidade dentro de si mesmo. Uns chamam isso de dedicação exclusiva ao amor-próprio. Eu chamo de momento azul da prússia.

3 de agosto de 2009

A comédia dos amores

Eu coloco um disco na vitrola e Padam Padam começa a invadir a nossa sala na voz de Piaf. Ele sai da cozinha com duas taças de vinho tinto nas mãos. Ele chega com passos no ritmo da canção e me incomoda por estar com o primeiro botão de sua camisa desabotoado. Eu o espero com braços postos em um vestido amarelo-ouro. Acabamos de chegar de uma festa de gala. Numa das mãos eu seguro a taça que ele me trouxe, com a outra tateio sua face e enrolo meu dedo indicador em um de seus cachos que escorrega sobre sua testa. Ele me olhando nos olhos diz Toute la comédie des amours e me beija no canto esquerdo dos lábios. Seus lábios estão quentes.
Num tomar descuidado ele me conduz pela cintura ao centro da sala onde valsamos o refrão da canção. Em cada girar sinto meu coração batendo junto ao dele. Nossos ritmos entram em compasso como os nossos pés. E giram, giram, giram...Vivendo o mesmo pulsar.
Então paro nossa dançar e o olho seriamente nos olhos. Encosto meu nariz e sinto o perfume que exala de seu pescoço. Retomo meu olhar aos seus olhos e pergunto o que faremos quando tudo acabar. Ele sorri, retoma a nossa valsa e sussurra "Quando tudo estiver acabando estaremos girando rápido demais para notar o fim." Nossas taças caem no chão no último gritar da melodia.



*http://www.youtube.com/watch?v=LfmguyDRBwU -- Padam Padam