11 de maio de 2007

Fomos enganados

Desde a época em que usávamos fraldas que somos atormentados por mil e uma informações e dentre estas muitas conversas para boi dormir. Falando nisso, nunca ouvi dizer que bois dormem ouvindo conversas... Mas voltando ao ponto, se acontecesse tudo que nos diziam, logo cedo já teríamos sido seqüestrados pelo velho do saco enquanto inofensivamente tentávamos dar uma saidinha de casa. Coitado do mendigo, além de toda a miséria que vive ainda tem o fardo de ser o terror de parte da nossa infância. Macabro, no mínimo.
Quando mexíamos com fogo éramos logo advertidos: quem mexe com fogo faz xixi na cama. Mas quem conhece alguém que já teve essa experiência? Algo constrangedor para os bombeiros.
Também temos a questão da conexão entre as mentiras e o crescimento dos narizes. Se isso procedesse muita gente em Brasília não conseguiria nem andar devido ao peso nasal que os empurrariam para frente. E até mesmo os próprios criadores deste boato já seriam narigudos. Seria isso um relato fruto da já então experiência deles? Vou começar a observar. Também nunca vi uma mentira com pernas. Tão pouco com pernas curtas.
Quantas páscoas e natais passamos envoltos de pura ilusão? Como pode um coelho entregar ovos? Ainda mais, ovos de chocolate. Qual a procedência deste ovo? Será que vem da Fantástica fábrica de chocolate? Seria Willy Wonka um coelho? Ou isso é apenas um silogismo?
Minha mãe me ensinou que não deveríamos aceitar doces de estranhos. E que eu saiba ninguém é íntimo do coelho da páscoa. Sendo assim, crianças não aceitem os ovos! Mandem para mim que já sou adulto e saberei o que fazer. E quanto ao bom velhinho... Esse foi a maior decepção de todas. Como pode haver em cada shopping um bom velhinho, se ele é apenas um? E ainda mais que deveria estar morando Pólo Norte com a Senhora Claus. Mas a pior mentira que o envolve é a de que ele entrega todos os presentes de todas as crianças do mundo na noite de natal. Nem que suas renas tivessem a velocidade da luz ele conseguiria tal proeza em apenas uma noite. E como ele teria dinheiro suficiente para comprar milhões de presentes? Nem o Bill Gates teria vocação para Papai Noel. E a gente acreditava...
Para as meninas eu sei que é doloroso, mas tenho que adverti-las. Não existe príncipe encantado. Nem sete anões irmãos. Nem casa feita de doces. Nem maçã envenenada ou abóbora que vira carruagem. Aliás, essa história de meter a comida no meio dos contos creio que sejam mensagens subliminares. Comigo não funcionou, continuo odiando abóboras.
Temos também as famosas histórias (com “h” maiúsculo) muito mal contadas. Proponho-me agora a fazer uma breve interpretação mais amadurecida a respeito delas. Que eu saiba, são raras as belas que se casam com feras. Normalmente são as “caça-dotes” de feras ricos e jogadores de futebol. E essa da Cinderela deixar de ser gata borralheira e passar a princesa? Teria a Cinderela o mesmo triste final da princesa Diana? Tenho lá minhas dúvidas, já que hoje percebo que essa de “viveram felizes para sempre” é um crime à imaginação. Pois o autor simplesmente nos priva da oportunidade de imaginar a Cinderela tendo um amante e morrendo perseguida por paparazzi. Que esperto ele foi, não quis comprometer a sua obra perante a sociedade conservadora.
A Alice do país das maravilhas provavelmente não mora no Brasil e com certeza usa drogas. Perseguir coelhos atrasados, visitar lugares estranhos e ver exércitos de cartas de baralho é algo comum para a galera que vive chapada.
Vou lhes apresentar os contos engajados e focados na situação do menor no mundo. A chapeuzinho vermelho é uma narração explícita do trabalho infantil. O João e a Maria retratam o que é o descaso dos pais para com as crianças. O outro João, só que do pé de feijão deveria aparecer na África e acabar com a fome do povo. Aproveitando a viagem e levando também a galinha dos ovos de ouro. Triste capitalismo selvagem.
Lembrei também da Rapunzel, que nos dias de hoje ganharia uma bolada vendendo seu cabelo para um salão que faça megahair. Seria até uma questão de segurança pessoal. Atualmente andam roubando cabelo por aí...
A bela adormecida bebeu tanto que entrou em coma alcoólico. Furou o dedo, pois foi se meter a tecer bêbada. Entendeu agora por que ela demorou tanto a acordar?Ressaca!
Tivemos também os desenhos e suas mentiras absurdas. Como pode o Frajola nunca ter pegado o indefeso Piu-Piu? E o Tom nunca ter pegado o Jerry? Além do Coiote que apesar de ser assassinado brutalmente todos os dias por suas próprias armações nunca morreu! Isso sem comentar casos como o do Pato Donald e seus três sobrinhos órfãos. Alguém tentou se perguntar que fim teve a irmã ou a cunhada dele ao abandonar os trigêmeos?
Atualmente estamos lutando para que os preconceitos para com deficientes sejam banidos, mas como explicar as diversas crises de riso que tivemos e temos com um rapaz com sérios problemas mentais como o Pateta? O nome dele já se trata de uma própria discriminação. Que vergonha...
Chaves é outro mistério. Até hoje não consigo entender como entendia. Como pode um homem ser agredido fisicamente por sua vizinha de forma contínua e injusta e não se mobilizar em denunciá-la por agressão física? Tudo bem que ele poderia estar exercendo seu direito subjetivo de não ser belicoso, ou simplesmente o de ser uma pessoa masoquista, mas que é estranho é! E o que dizer da apologia à obesidade infantil atribuída a Nhonho, que no seriado deve ter uns dez anos e uns 150 quilos? Além da negligência do cobrador de aluguéis que aceita um inquilino que nunca paga. É... Chaves é um seriado sem lei.
Enchiam minha cabeça também com folclore. Mas debaixo da minha cama nunca vi nenhum monstro. E dentro do meu guarda-roupa, além da bagunça, não encontrei mais nada. Também nunca vi nenhuma loira no banheiro além da servente do colégio. Mula sem cabeça, lobisomem, Boitatá, que inclusive até ontem pensava que se tratava realmente de um boi, nunca me apareceram.
Descobri que Sol e chuva não geram casamento de viúva, mas sim arco-íris. E que este não tem fim e muito menos pote de ouro. Que sem graça.
Pelo que tenho visto o filme mais apropriado para as crianças mais realistas é o Shrek. Ogros, capitalistas, gays, vilões, pessoas preconceituosas, casamento por interesse, gatos dissimulados, burros que falam demais... Bem criativo.
Se bem que, o que seria do mundo se as crianças logo de cara percebessem que nem tudo que rola é bola, e que as coisas não dão sempre tão certo? Talvez esta ilusão seja necessária para que não cheguemos a procurar um analista com menos de 15 anos. A magia destas coisas nos fez acreditar na vida e nas pessoas. Éramos felizes mesmo esperando em vão que bichinhos e árvores falassem conosco, que tivéssemos algum super poder ou fossemos levados para passear sobre algum tapete mágico. Sem tudo isso não sei o que seriamos hoje. Talvez pessoas mais frias, pessimistas, desorientadas.
Uma infância sem magia não é infância. Uma criança sem imaginação não é criança.
Jamais esquecerei das belas histórias que minha mãe me contava antes de ir dormir. Histórias como a do jacarezinho egoísta que perdeu a sua lagoa, pois não sabia dividir, e que com essa lição aprendeu a ser um ser melhor. Com certeza não só ele aprendeu com isso. Assim, espero que quando eu tiver os meus filhos eu possa contar para eles historinhas como essa; sem que com isso eu sinta remorso ou fique nariguda.



Mônica Meira

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