23 de fevereiro de 2008

Quem tem medo de Virgínia Woolf ?


Conheci Virgínia Woolf no cinema. De fato, não foi o local mais adequado para conhecê-la, mas me consola saber que existem coisas especias em nossa vida que acontecem de forma inesperada, através de situações inusitadas. Desde então, me apaixonei por ela.

Virgínia Woolf escrevia com fluxo de consciência, sua marca registrada. Tal como a nossa Clarice Lispector veio fazer anos mais tarde, ela retratava pensamentos e acontecimentos como eles surgiam- aleatórios. Retratava detalhes, minúcias, visões. Componentes básicos de cada ser humano. Misturava seus pensamentos pessoais com os pensamentos de suas personagens.

Virgínia teve uma infância de boas influências literárias, violência e luto. Futuros chefes de seus comportamentos e escritos. A loucura deve papel dúbio em sua obra. A fez visualizar no mundo outros aspectos e talvez perder alguns de seus próprios. Acredito que escrever e ler fossem seus sustentáculos como mulher. Não desmerecendo o imenso companherismo e amor de Leonard Woolf, seu esposo. Inclusive, ela dizia que estava depositada nele toda a sua felicidade.

Perder incontrolavelmente o seu equilíbrio como mulher, escritora e leitora, fez da forte Virgínia alguém mais frágil. Como ela coloca em trechos de sua última carta deixada a seu marido e irmã antes de seu suicídio no Rio Ouse: " Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar.","Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer.","Tenho certeza de estar ficando louca novamente.","Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler.".

Espero decididamente que em breve atravessando o exaustivo "Portal Vestibular", eu mergulhe de cabeça em todas as obras desta maravilhosa modernista. E nesta imersão, em vez de pedras nos bolsos, eu levarei minha alma e minha incansável admiração por esta mulher que revolucionou a literatura não apenas como escritora, mas como alma feminina.


Definitivamente, é um ultraje ter medo dela.

20 de fevereiro de 2008

Poemas Sozinhos (II) e Versos Descoloridos


Um dia assim distraído
Percebi bem ao pé do ouvido
O silêncio que andava no ar

O escuro escondeu meu desenho
Descobrir fui um susto gelado
Que ao meu lado alguém não está

Mesmo quando multidões se aproximam
Com suas vozes, violas, pesares
Só escuto o som do silêncio
Seus ruídos me levam a outros lugares

É como se o tempo fosse o único vivo
Com seus mistérios, incertezas, milagres
Que pudesse invadir os meus olhos
E me fazer altercar minhas verdades






*Os dois tercetos foram escritos por Álvaro Andrade. ~~ Poemas Sozinhos (II)
*Os dois quartetos foram escritos por Mônica Meira.~~ Versos Descoloridos

19 de fevereiro de 2008

A Despedida


Hoje me vesti de preto.
Tirei do armário aqueles velhos sapatos empoeirados.
Me preparei.


Colhi as flores mais lilás de meu jardim.
Senti pela última vez o vento. Ouvi pela última vez o seu uivar.
Hoje será um dia nublado. Frio.



Estou velando um corpo.
Um corpo ainda quente porém, morto.
O corpo de Casimiro de Alcântara.
Meu próprio corpo.
Me declaro em luto.



Observo as velas febris e o silêncio enregelado.
Eis o meu velório.
O meu último suspiro de adeus.


Como epitáfio deixo alguns versos roubados na primeira gaveta.
Palavras mortas. Rimas secas.
Só aguardo o calor da terra.
Só aguardo a transmutação para dentro de mim mesmo.
Meu momento de esvaecer.



Espero que as lágrimas germinem a minha semente.
As lágrimas que espero vêm da chuva.

18 de fevereiro de 2008

Filha de peixe, peixinha...


"No dia seguinte acordei com ela ao lado da rede alisando minha perna e o divino :"códe papai".
Levei acerolas e ela encarregou-se de distribuí-las a todos, um a um. Pede biscoitos a Nalva dizendo: "Nalva, bicóito" em substituição ao antigo "biquéito". Gostou muito das poças d'água formadas com a maré baixa, chamando-as de "sininha"(piscininha). Acostumou a ver Rodrigo surfar e passou a gostar de ficar em cima da prancha de surf, falando "ufá", chorando para não sair.
Meio dia sempre vinha me buscar falando : "Papai muçar".
Não esquece os coelhos, os passarinhos e Jade, que chama de "Nenem de tio Moje". Perguntando-me vez por outra :" Papai, quêio...pipiu...nenem de tio Moje..."
Deve estar dormindo agora. Espero, quase com convicção, que seu sonho se passe em um mundo melhor, e que esse mundo um dia, você venha a habitar."

27/ 01/ 91


~~Esse texto foi retirado do diário que meu amado pai escrevia quando eu era pequenininha. Tenho estas palavras como tesouros que merecem estar bem guardados dentro do meu baú. Dentro do meu ser. Dentro do meu coração.

17 de fevereiro de 2008

Recomendações

-Recomendo os livros: "O Carteiro e o Poeta" de Antonio Skármeta, e "O Médico Doente" de Drauzio Varella. Instigantes e agradáveis, cada um à sua maneira



-Recomendo os filmes : "Crimes de autor" de Claude Lelouch(filme francês não muito fácil de encontrar, mas tentem, vale a pena) e "O Amor nos Tempos do Cólera" de Mike Newell (adaptação do livro de Gabriel García Marques com o mesmo título do filme). São excelentes. O primeiro é bem envolvente, consegue misturar suspense, comédia e drama de forma singular.Entrou para os meus favoritos.
O segundo também é muito interessante, uma ótima história já conhecida como grande obra literária que foi muito bem adaptada para as telonas. Tem toda a latência do espírito latino (mais intensificado com a presença de Shakira na trilha sonora). Vale destacar a sublime participação e interpretação de Fernanda Montenegro.




-Recomendo o Cd :"Back to Black" da cantora inglesa Amy Winehouse. O Cd não acabou de sair do forno mas ainda está bem quente. Gosto em especial, da música "Love Is A Losing Game". Também recomendo que escutem uma banda portuguesa chamada Madredeus. Se possível o cd "Antología". É como escutar a trilha sonora do paraíso. hehe



-Recomendo para finalizar que conheçam a Yoga. Faço e simplesmente acho incrível. Você exercita espírito, mente e corpo numa mesma atividade.


Espero que gostem...~~


Bisous **

15 de fevereiro de 2008

Fotografia


Passava no céu uma nuvem de algodão doce em formato de urso naquele exato momento. Também naquele instante, um homem lia a última página de seu livro de capa verde e uma senhora recebia a notícia da sonhada gravidez de sua primeira filha.

Uma brisa leve me sussurrava algo indecifrável que me despertava um suave sorriso no rosto. A grama massageava meus descalçados pés e alguns raios de Sol esquentavam minha face.
Eu olhava para dentro daquela caixinha com desconfiança mas aguardava ansiosamente o comando oficial do fotógrafo para sorrir.
Quando então, algo me envolveu de súbido. Era uma luz verde clara com cheiro de jasmin e sensação aveludada. Tinha gosto de jabuticaba.
Em meio à toda sinestesia inebriante fui levada para as estrelas, abracei cometas, dei cambalhotas na lua. Fiz dos anéis de Saturno, bambolês.

Quando abri os olhos e me percebi em solo, não encontrei mais nada além de uma fotografia Polaroid jogada aos meus pés. E nela impressa meu corpo vazio. Nela não haviam resquícios de alma. Apenas uma pequenina borboleta lilás que me tocava as orelhas com suas asas.

14 de fevereiro de 2008

"¿Y hasta cuándo cree usted que podemos seguir en este ir y venir...?"

*Só porque hoje é hoje para alguns lugares.

(Gabriel García Marquez )



Não sei se um dia serei tudo para alguém. Espero que não.
Tudo é muito. Pesa.
Como também não suportaria o vazio de não ser nada para alguém.
Nada é muito. Pesa.
Para mim, o amor é leveza.
É simplesmente não sentir sentindo. Não doer doendo.
É pluma.

Mônica Meira




9 de fevereiro de 2008

Lágrima e suor


Correm vivas pela face fria, duas gotas.

Escorrem e ferem o rosto cru, que envolvido pela pele áspera, procura o sentido de um breve suspiro.

Procura explicação para uma tarde tão gris.

Suor congelante e lágrima febril dividem os mesmo sonhos, os mesmo amores, os mesmos medos.

Ambos roubam o calor do teu corpo. Destroem a tua humana homeostase.

Ambos consomem a tua passageira alma. Materializam-se numa pungente dor.

Seca teu rosto infantil, mulher.

Não perca-se por dentro. Não perca-se por glândulas.

Afinal, está por vir uma alma infantil com rosto de homem.

E esta traz flores amarelas e sorrisos desencontrados.


8 de fevereiro de 2008

Os pés do José


Os pés do José têm vida própria. Calçam o que querem e caminham para onde querem. Sem discussões.

Os pés do José adoram meias azul-celeste. Não aceitam nada em tom marrom. Até gostam de meia furada.

Os pés do José são ásperos e grosseiros. Possuem uma dura história de vida. Já bateram firme ao chão com muita dignidade.

Os pés do José adoram correr em contato com a grama. Saúdam um belo banho de rio. Deliram sobre areia de duna.

Os pés do José dormem de pé quando o José deita com sono. Isso deveria ser um "o que é, o que é". Mas não é.

Os pés do José gostam de vento entre seus dedos. Gostam de lua. Caçam estrelas.

Os pés do José trazem feridas, cicatrizes, fome. Trazem seca.

Os pés do José temem bicho de porco, caco de vidro, prego, chiclete.

Os pés do José adoram bolero. Adoram os pés da Berenice.

Os pés do José marcam uma quilometragem invejável à qualquer viajante.

Os pés do José são firmes e voam entre as nuvens. Mas são presos ao chão.

Os pés do José são parte do mundo. São lenda. São mito. São cordel.

Dos pés do José jorram cachoeiras de mel.

7 de fevereiro de 2008

A Biografia do Baú

Num certo dia, meados de 1912, Lutzka percebeu-se vazia, sem história para contar. Parecia não ter passado. Pensou ter surgido através do encontro de uma nuvem violeta e um raio de Sol. Sua memória falhava, deletava casos e acasos. Tinha medo de esquecer seu próprio nome.
Foi quando então ela resolveu guardar tudo num baú de cartas. Um baú velho e esquecido no sotão. Desde então entraria para história como vulto. Mesmo seus mais sutis momentos seriam firmados à posteridade. Assim passou a sentir que sua vida teria mais sentido. Alguma semente sua ficaria para o além.
Sua vida se materializaria em páginas, em cartas. Dentro do baú da existência. Sem ordem cronológica. Memórias aleatórias.
#Pintura de Konstantin Egorovich Makovsky






5 de fevereiro de 2008

Maria

Maria era verde com bolinhas violeta e todo mundo era vermelho.
Um dia ela resolveu pintar-se de vermelho. Assim seria vista como igual, mesmo que por um breve instante. E isso a fez feliz.
Porém sentiu-se distante de seu próprio ser.
Então revelou aos monocromáticos como era de fato. Ninguém acreditou.
Riram, debocharam, a humilharam...Depois de uma noite de muito choro ela percebeu-se azul.
Era definitivo.
Mas sabe, ela só fora plenamente feliz enquanto verde com bolinhas violeta.