24 de maio de 2008

Quando o sertão virou mar


Quando a água se enfurece vira fogo. Queima os nossos corpos e sonhos.Vira máquina. Desmorona cada pedaço construído como se dela fosse.

Cada lágrima e gota de suor derramada tornou-se enchente, tornou-se lama. Foi tão alto que transformou uma cidade seca em rio. Árvores em algas.


Numa casa de pau-a-pique escura e distante moram sonhos e filhos. Mães e pés na lama. Mora o vazio.

Uma senhora atravessa cabisbaixa pelos destroços com um quadro e um ramo de pimentões nas mãos. Seus olhos não estavam presentes.

Uma mulher louca sorri enquanto nina um bebê de plástico. Para ela tudo é seca, tudo é ontem.

Uma grávida espera sem esperanças.

Um herói ao sentir as primeiras gotas de chuva, volta para casa com medo.

Roupas não bastarão, alojamentos não caberão. O que a água leva nela fica. Mesmo que seja o pouco, mesmo que sejam os sonhos.

Aquela noite já passou. Por sorte ninguém se feriu. Mas nenhuma noite é única e aquele povo não pode mais esperar. Ficaram nas mentes mais do que pesares, ficaram fantasmas da noite em que Maruim ficou submersa.




* Escrevi isto com base em tudo que vi com meus próprios olhos na cidade de Maruim. Esta cidade que não chega a ser um típico sertão, mas é uma cidade humilde, fica no interior do estado de Sergipe e recentemente passou por uma enchente de danos absurdos. Fui com um grupo do cursinho em que estudo fazer doações de roupas, lençóis, e material de higiene pessoal. O cursinho liderado pelo médico e professor Almir Santana, conseguiu arrecadar muita coisa e destribuir para algumas famílias da cidade, sejam as que estão isoladas em povoados paupérrimos ou as que estão alojadas numa escola pois perderam suas casas. Nesta escola dormem por sala cerca de 31 pessoas.
O caso é grave e se intensifica com o período de chuvas do estado. Conversei com muitos moradores e todos estão desesperados, preocupados, desamparados. Perderam suas casas, móveis...Por pouco suas vidas. Eles que já são pobres estão à mercê de doações. O governo precisa tomar atitudes emergenciais naquela cidade. A chuva e o rio não esperarão, o povo também não pode mais esperar.

Um comentário:

Antônio J. Xavier disse...

Pena que é apenas mais uma entre tantas histórias de sofrimento desse povo pobre, mas bravo.
Parabéns pela iniciativa.
Bjinhos