30 de abril de 2009

Contratos sentimentais




- Romances não funcionam. - disse ela enquanto procurava o seu contrato em meio a outros papéis.

- Concordo. Uma conciliação hipócrita. – disse ele buscando uma caneta em seu paletó.

- Defina hipócrita

- Definições também são hipócritas.

- Leio primeiro eu ou você?

- As damas primeiro.

- Começo com exigências ou atributos?

- Atributos. Mas antes, as apresentações regulamentares.

- Sem problemas. Luiza Zefirelli Antunes, idade 25 anos, formada em Direito. Turma de 2001.

- 2001?

- Sim, algum equívoco contratual?

- Nenhum. Só estou confirmando os dados.

- Quer que eu me faça mais clara?

- Não, sinto muito, esta interrupção não se repetirá. Prossiga.

- O meu pai recebe 100 salários mínimos e minha mãe fala italiano com fluência.

- Como esperado.

- Como esperado. O senhor pode apresentar sua ficha introdutória.

- Marco Antônio Pezzini Moraes. 25 anos, formado em Direito. Turma 2000. Meu pai recebe 100 salários mínimos e minha mãe fala italiano com fluência.

- Como esperado.

- Como esperado. Nossos sobrenomes ficarão então, Zefirelli Pezzini, nesta ordem. Concorda?

- Sim, muito sonoro. Pode iniciar sua lista de atributos.

- Visualmente com cabelos de cor castanho-clara, mas naturalmente loira.

- Isso por um instante me assustou já que constava “Loira” no contrato preliminar que recebi mês passado.

- Isso pode ser revertido caso o caro contratuante se oponha.

- Positivo. Prossiga.

- Olhos esverdeados. Não me peça para retirar os meus óculos escuros Dior enquanto eu estiver com eles. Sei que isso estaria na lista das exigências, mas antecipo por motivo maior e referente a uma situação presente.

- Acredito na cor de seus olhos. Prossiga.

- Tenho pernas torneadas, uso Channel n°5, preciso dormir dez horas por dia, faço musculação, depilação, pinto as unhas, ou melhor, pintam para mim. – riu de leve por uma mínima fração de segundos mas logo voltou à postura de seriedade.

- Pinta as do pé de cor escura?

- Não.

- Positivo. Muito positivo. Prossiga.

- Costumo exercitar o silêncio. Preparo massas como hobbie, faço massagem indiana, assino Caras, tenho Prada, Gucci...

- Burberry?

- Evidentemente.

- Positivo. Muito positivo.

- Me visto bem como percebeu, e gasto bastante com moda como pode pressupor.

- E quanto aos futuros filhos?

- No primeiro contrato assinado constava dois.

- Exato. No máximo dois. Pode prosseguir.

- Exigências gerais: duas viagens internacionais e teoricamente românticas por ano, jóias inesperadas mensalmente, uma governanta, uma cozinheira, uma arrumadeira, um motorista. Um banheiro só para mim. Exigências particulares: Não gosto de andar de mãos dadas, não tolero toalhas molhadas sobre a cama, falando nela, durmo do lado esquerdo. Só durmo em lençol de cetim.

- Só cetim. Positivo. Muito positivo. - respondeu enquanto acompanhava o que ela dizia em sua própria cópia do documento.

- Sua vez.

- Tudo bem, meus atributos então: olhos azuis, como pode ver, não ganho peso com facilidade, pratico squash e tênis semanalmente. Lixo as unhas, ou melhor, lixam para mim. – riu de leve por uma mínima fração de segundos mas logo voltou à postura de seriedade.– Conheço vinhos como padres conhecem orações. Falando nisso, não sou um homem muito religioso. A senhorita é?

- Posso ser ou não ser com o tempo. Prossiga.

- Dentre minhas exigências estão, seu compromisso na educação dos futuros filhos, suas idas aos meus jantares de negócios, cuidados estéticos, maquiagem suave, roupas discretas mas lingerie provocativa.

- Provocativa? – disse assustada.

- Se a contratuante me permite, é claro.– completou encabulado.

- Exijo o mesmo do senhor contratuante.

- Quer que eu também use lingerie provocativa contratuante? – perguntou assustado.

- Não, mas peças de baixo elegantes e sempre novas são indispensáveis.

- Evidentemente.

- Que bom. E haverão...beijos? – perguntou encabulada.

- Pelo contrato isso será uma decisão de comum acordo que nos caberá fora das disposições aqui registradas e autorizadas. – Fala e a entrega sua cópia de contrato.

- Veremos, veremos. – disse enquanto relia o contrato.

- A quebra do contrato seguramente incidirá no divórcio sem a partilha de bens como já tratamos, porém com uma pensão pré-estabelecida.

- Exatamente. Mas o contrato tem validade de quantos anos?

- 55 anos. Conclui em 2064. Quando estivermos com 80 anos de idade. E não haverá renovação ou prorrogação.

- Certamente. Completaremos as Bodas de Ametista e concluímos o contrato sinalagmático. Prossigamos.

- Positivo. Acredito que já explanei minhas exigências básicas. Podemos fechar contrato?

- Não tratamos sobre a festa da união legítima.

- Positivo. Acontecerá no mês seguinte e provavelmente será para 300 convidados. Agrada-te?

- Sim. Devemos contratar alguma empresa já especialista para estas organizações de festa. Detesto burocracia, mas não me envolverei sozinha na organização deste cerimonial.

- Tem meu aval para o que precisar.

- E quanto à lua de mel?

- Ainda não havia pensado. Mas acredito que uma ilha da Polinésia Francesa seja uma boa pedida. O que acha?

- Tudo bem. Desde que estejamos num hotel de luxo com lençol de cetim.

- Evidentemente. Podemos fechar negócio?

- Sim. Ao menos que o senhor tenha alguma objeção...

- Não tratamos sobre o “Eu te amo”. O que a contratuante pensa sobre a frase expressiva?

- Podemos utilizá-lo para nossos filhos, mas essa já é uma cláusula que incidirá em outro contrato que assinaremos quando o primogênito nascer. Mais alguma objeção?

- Nenhuma. Negócio fechado. Bem-vinda à minha vida. Conto com a sua colaboração no cumprimento das exigências contratuais.

- Digo o mesmo ao senhor. Mas mesmo acreditando na veracidade de seus atributos, meu advogado estará acompanhando os laudos que emitirei sobre o andamento do processo ativo.

- Positivo. Muito positivo. Farei o mesmo. Hoje haverá um jantar na casa de meus pais em comemoração à assinatura deste contrato. Uma boa oportunidade para conhecê-los, não acha? E quem sabe poderíamos ir a um cinema depois, conversar um pouco...

- Isso está constando no contrato? – procura nos seus papéis.

- Na verdade...- pára por um instante sugerindo um romantismo.

- O quê? – pára por um instante sugerindo uma expectativa de romantismo.

- Página 23, sexto parágrafo. - fala seriamente.

- Certamente estarei lá. – fala decidida terminando de assinar o contrato.

- Positivo. Muito positivo. – fala sisudo enquanto apertam as mãos.

19 de abril de 2009

O Coração do Homem-Bomba


* Sem música eu não vivo em cores. *~~

7 de abril de 2009

Anotações de uma menina

Gaita. Il Va Partir. Piano.
Trouxe uma planta pra minha mesa. Uma janelinha pra vizinhança que me inspira a escrever algumas coisas que sinto. Como aquela mesma janela do quarto andar que está sempre fechada.
Ontem visitei um museu e fiz anotações. Duas coisas para antes de morrer, pintar algo de mim numa tela cheia de roxo e amarelo e proibir a entrada de máquinas fotográficas em museus. Talvez assim eu me concentre mais. Tenho poucas manias como fotografar e listar.

Listar o que fiz, farei, comprarei, casarei, plantarei...

1- Uma amoreira
2- Um ipê rosa
3- Um coqueiro

*É tão engraçada a plantação de coqueiros.


Queria morar na praia. Prefiro In The Lake.